Dia 16 de agosto de 2010. O alarme do relógio toca mas eu não escuto. Acordo com o grito da minha mãe que me diz que já estou atrasado para o trabalho. Tomo um banho rápido, café e saio correndo até o ponto de ônibus. Na estação de trem, tudo parado. Um monte de gente na plataforma sem informação do motivo do atraso do trem. O auto falante informa que os trens estão andando com velocidade reduzida por conta de uma composição quebrada.

Depois de meia hora e a estação abarrotada de gente querendo ir ao trabalho, vem o trem. Uma composição antiga cheirando a óleo queimado com as janelas semi-abertas, as únicas formas de ventilação. O detalhe fica por conta da lotação, que não permitia que o vento circulasse, e por isso, o calor era insano. Começo a suar igual esportista durante uma competição de maratona.

Com a velocidade reduzida, o martírio fica insuportável e algumas pessoas começam a passar mal.

Um religioso entra no trem apertado e começa a falar de religião e passar entre as pessoas, como se não tivesse outra hora para pregar religião. Uma pessoa se exalta e acaba discutindo com o rapaz. Até então estava com o fone de ouvido mas, tirei para escutar a discussão, que cuminou numa das coisas mais interessantes que eu vivi num trem.

O homem que se exaltou dizia que o que aquele rapaz estava fazendo era um absurdo, pois, com aquela gritaria (pregação) ele não conseguia dormir – o que dava para perceber que ele estava sentado e do lado da janela. Uma senhora ao seu lado também reclama daquele ato e xinga o rapaz enquanto alguém liga para a administração da ferrovia, o que torna o ambiente tenso. mas o que me espantou foi o que o rapaz evangélico disse:

 – Vocês reclamam de mim como se eu fosse bandido, mas eu estou aqui falando de Deus e trazendo à vocês a palavra do Senhor. Não adianta despejarem em mim as suas raivas, me xingando e gritando pra mim. Todo mundo aqui pega trem e ninguém reclama do governo. Ninguém reclama dos preços, dos impostos, das leis, da corrupção ou da falta de atendimento em hospitais. Vocês reclamam de mim. A minha presença é mais desagradável do que tudo o que vocês estão passando aqui neste trem. Tá faltando Deus nos seus corações.

Outras pessoas entraram na discussão contra o rapaz, mas eu não escutei direito por conta dos burburinhos e do som do trem, que eram altos.

Duas estações depois, na Móoca, o trem parou e entraram dois guardas ferroviários no vagão pra retirar o rapaz à força por conta do telefonema que alguém tinha feito. Eficiência que nunca vi igual.

O rapaz não quiz sair, declamando a constituição federal, que ele tinha o direito de ir e vir e à liberdade de expressão. Fiquei pasmo com a sua postura política.

Foram dez minutos até que um dos guardas, de forma abrupta e violenta o retirasse do vagão para alivio de muitos e repúdio de poucos.

Diversas vezes ouvi nos alto-falantes que por conta de avaria na composição parada na estação, os passageiros teriam que sair para esperar pela próxima, mas aquele trem quebrado saia da plataforma sem ruídos ou demonstrando problemas mecânicos como falado. Vamos acreditar e esperar o próximo, é a única coisa a fazer.

Mas naquele dia, por conta daquela confusão no último vagão de seis no total, pude constatar um dos motivos para que uma composição tivesse que sair sem os passageiros.

O rapaz saiu do vagão rumo à gerência – eu acho – e estavamos esperando para a partida, rumo à estação seguinte – Brás. Mas o trem não saia e as portas tampouco se fecharam. Foi quando recebemos o comunicado que o trem, por conta de problemas mecânicos não mais prestaria serviços e que todos teriam que sair para esperar o outro trem. Todos saíram calmamente, como uma rotina qualquer.

Fiquei curioso como as outras pessoas dos outros vagões, que não sabiam o que estava acontecendo no último vagão estavam pensando sobre aquilo. Como diversas vezes eu mesmo ouvi aquela mensagem e simplesmente sai do vagão e esperei.

Consegui chegar ao trabalho todo amarrotado e suado. como sou gordinho, sobrou pra mim como sempre – “Porque não faz um regime?” – Aff.

Toda vez que me deparo com uma situação dessas penso naquele rapaz religioso que, mais que todos ali, sabia os seus direitos e não estava alheio ou robotizado como os demais passageiros.

Dois anos depois, não ando mais de trem no horários de pico, mas ainda vejo na imprensa que as coisa pioraram. Uma pena!

 

Maio 2, 2013

Trem – um transporte eficiente

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